Sobre um Lopes
Ele nunca tinha sentido tamanho desconforto com o acender de uma luz. A claridade ofuscou-lhe os pensamentos e a angústia tomou conta de suas atitudes de tal forma, que a única coisa que lhe pareceu sensata foi correr para o canto mais escuro ao qual seus olhos, fechados, puderam guiar-lhe.
Cansado, bem mais calmo e protegido pelo úmido breu de uma sombra, suas idéias estavam inundadas de tantas dúvidas, que ainda foram necessários uns longos minutos antes que ele retomasse a coragem de abrir seus olhos. Abriu-os e deparou-se com uma visão, no mínimo, assustadora.
Seu nome era Lopes, desde sempre Lopes. As pessoas quase nunca lembravam seu nome, muito menos seus feitos. Sua simplicidade incomodava os mais calmos monges. O homem era simplesmente simples.
Seus filhos, já crescidos, abandonaram qualquer esperança de apresentá-lo aos amigos na escola ou em qualquer outro lugar, já que não teriam nada para contar. Nem de quando ele quase errou o caminho de casa na volta da escola. Quase. E assim, cheia de quases, era a vida de Lopes.
O que ele não contava era que um dia as coisas não sairiam planejadas conforme o que ele esperava, sem planejar. Enquanto Lopes recompunha sua calma, mas antes ainda de abrir os olhos, pode relembrar momentos dos quais se apavorava só de pensar.
Até daquele lugar cativo do ônibus escolar que um dia estava ocupado, causando-lhe desespero. Quando as coisas saiam de seu controle ele costumava suar nas mãos e no nariz, ansioso, chegava a sentir dores diante do acaso. Já foi a médicos, de clínicos gerais a especialistas, de novalgina à chá de santo daime, mas tudo com hora marcada. Para começar e terminar.
Casou-se, teve filhos, funcionário público, gostava de café e fumava muito. Fumava Charme, não tinha coragem de mudar. Dizia que era o Charme dele. Também, que dera ele ter tido um charme que não fosse o cigarro.
Chato. Previsível.
A luz que se acendeu, ascendeu diante de seus olhos e mostrou-lhe seu mundo. Lopes, tirado de seu sono foi surpreendido, como nunca em toda a sua vida. Estava em seu próprio velório. Que ... Alegria?!?!?!?
- Morri! Concluiu.
Ao ver em seu velório, a alegria dos entes queridos e de seus poucos amigos entendeu:
Finalmente alguma coisa da qual podia se orgulhar, morreu, fulminantemente, sem prever.
Claro que a pensão que deixou aos filhos também era motivo de orgulho, mas esta não surpreendeu ninguém.

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